Histórias simples da gente simples cá do meu Burgo.
Maria Abana era alcunha. O seu nome verdadeiro era Maria da Silva, mas todos a conheciam por Maria Abana. Bonita mas simplória, ficara conhecida por Maria Abana porque no seu jeito de andar o seu traseiro “um pouco avantajado” bamboleava, abanando encimado numas pernas bonitas. Muitos lhe faziam a corte, mas a Maria Abana apenas gostava do Jaquim Maltês com quem veio a casar. O Jaquim viria a morrer novo, deixando a desgostosa Abana viúva. Por essa época, havia nas Fazendas apenas dois telefones; um na loja do João Mateus e outro na loja do Guilherme Botas. O João Mateus e o Guilherme Botas eram ambos de proza fácil, sendo o Guilherme Botas brejeiro nas piadas que dizia com certa graça; O João Mateus era um poeta popular de improviso quase imediato e brincalhão nos seus dichotes. Homem culto, conhecia as lacunas de todos os seus clientes. Um dia, estava o João Mateus ao telefone, entra a Maria Abana e estranhou ver o João Mateus a falar para aquela coisa preta com um fio pendurado. Quando terminou o telefonema, perguntou a Abana: Ó Sr. João, estava a falar com quem? Ele, conhecendo as limitações da Maria Abana, respondeu: estava a falar com o S. Pedro! Ó Sr. João, pergunte lá ao S. Pedro se o meu Jaquim está lá no céu? Ele era tão bom homem, coitadinho do meu Jaquim. Ele, maroto, respondeu-lhe: hoje já não pode ser, ele só atende uma vez por semana, mas na próxima, quando vieres à loja, lembra-me que eu ligo e tu falas com ele. Muito obrigada, Sr. João, respondeu, feliz, a Abana. Quando a Abana saiu, o João Mateus ligou ao Guilherme Botas e contou-lhe do desejo da Abana em falar ao S. Pedro e combinaram que o João Mateus ligava e ele fazia de S. Pedro, para falar com a Abana. Dito e feito; na sexta feira seguinte lá se apresentou a Abana na loja, e como havia muita clientela, pediu se podia falar com o S. Pedro enquanto esperava pela sua vez; sim senhora, respondeu o João Mateus, vou já ligar para ele. Ligou então para o Guilherme Botas, e, quando este atendeu, perguntou: é o S. Pedro? Está aqui uma Sra. para falar consigo; e passou o telefone à Abana que tremia de nervos por ir falar com o S. Pedro. A Abana perguntou: Ó Sr. S. Pedro o meu Jaquim está aí no céu? O Guilherme Botas, fingindo de S.Pedro, maroto como era, respondeu: não, minha filha, ele esteve aqui mas não podia entrar porque tinha uns cornos muito grandes e não cabia na porta. Envergonhada, a Maria Abana desligou e clamou em voz alta: Ai credo, só pus os cornos ao meu Jaquim uma vez com o capataz, no tempo da cura, e o malandro do S. Pedro já sabia. Imagine-se a risada geral.
Ernestino Tomé Alves – Advogado
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