Colocando de lado a questão ideológica, propagandista ou de outra natureza, que não vêm pró caso, trago um dos mais belos cadernos escolares de sempre. Não pela particularidade do motivo em si, mas principalmente pelo grafismo e pelo colorido utilizado na ilustração, o que de facto não era muito vulgar, até porque um dos princípios da produção de cadernos escolares, como artigos auxiliares, era o seu baixo custo. Este caderno, julgo ser dos anos 40, tem como tema a Mocidade Portuguesa, sendo que a capa é alusiva aos lusitos, componente masculina do movimento, cujo escalão integrava as crianças rapazes dos 7 aos 10 anos, e na contra-capa, às lusitas, componente feminina.
Veja-se que o estandarte do movimento diferia, sendo o dos lusitos de forma quadrada e o das lusitas em forma de losango. Crianças com as vestes de “mercenários” com a Bandeira Portuguesa antiga no livro da 3ª classe na própria capa, já dizia tudo. Estávamos em 1961. A guerra no Ultramar estava a vitimar tudo e todos. Éramos diariamente injetados com o hino de “Angola… é nossa! Angola… é nossa”, pelo Coro da F.N.A.T. (Famintos Nacionais Agarrados ao Tacho). Ferreira da Costa, o correspondente de tudo (?) do que se passava por lá, informava na então Emissora Nacional: – “Daqui fala Ferreira da Costa no norte de Angola…” etc., depois de algumas consideradas politiquices a favor do Regime do que se fazia por lá, tinha sempre uma lembrança de um militar para a sua família na Metrópole… – “Vamos de imediato dar conta de informação para uma Aldeia perto de Cinfães do Douro: para os familiares do Soldado, nº. (…), Morais Ventura (Este) encontra-se bem e em breve regressará à sua terra Natal a fim de lhe fazerem um funeral mais digno…” (Eu ouvi isto!). Ou uma das palermices da altura: pedia a todos os familiares de militares que queriam falar na RTP nas mensagens de Natal para a Metrópole, que os ajudassem no envio de dinheiro através do M.N.F. (Movimento Nacional Feminino) porque estas mensagens eram pagas pelos próprios. “Portugal precisava da vossa ajuda”. Bem os filhos já lá estavam, obrigados… faz-me lembrar os funcionários Públicos que lá estiveram por imposição militar para terem hoje a reforma de velhice, tiveram que pagar o tempo que foram obrigados a lá estarem. G’ANDA PAÍS! Mas eu dei a volta a isso tudo. Mas ficou em todos a recordação naquele dia ao lermos na Escola em uníssono a história daquele Emigrante que na América do Sul, depois de uma vida de trabalho, chegou a velho e não tinha dinheiro para voltar a Portugal. Ao passar por uma relojoaria ouviu o bater as horas de um relógio que era igual ao som do sino da sua Aldeia Natal. Gastou todas as economias para comprar esse relógio porque a partir desse momento já podia morrer descansado imaginando que estava na sua Aldeia, a ouvir o sino. Era comovente e por acaso o Conjunto da Maria Albertina cantava o Fado do Emigrante relacionado com a história… Longe da terra natal… Longe da terra e dos seus, etc.
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